O dom da novidade.

E de repente eu me deparo com a novidade. E percebo que se tem uma coisa que não é mais novidade é justamente ela… a novidade.
Todos os dias existem coisas novas que podemos, somos obrigados, ou até mesmo levados a descobrir. Até o ciclo comum de uma vida simples e sem propósito do mais pacato cidadão é repleto de novidade.
O primeiro dia de aula, o primeiro beijo, o primeiro emprego, o primeiro amor, a primeira vez, o primeiro filho e… o segundo dia de aula, o segundo beijo, a demissão, o segundo emprego, todos os próximos amores, ou a falta deles, as inúmeras vezes, tudo vai sendo novidade e se tornando rotina quando vai deixando de ser observado e apreciado.
Rotina então seria a novidade obsoleta?
Se assim for, posso entender que talvez, o ‘bom dia’ do porteiro não seja o mesmo todos os dias. Posso ver que as pessoas que passam por mim no natural caminho do trabalho são sempre diferentes, e mesmo que sejam as mesmas, a música nos fones de ouvido não será, o clima mudou, está mais frio que ontem, as roupas são outras. Minhas ações talvez sejam as mesmas, o ambiente pode ser o mesmo, as pessoas não são, mesmo sendo.
Somos todos mutantes. Querendo ou não, as pessoas mudam. Porque querendo ou não, elas se relacionam e os relacionamentos provocam mudanças que vão nos tornando diferentes e novos.
Penso que o exercício da mudança é involuntário. Mas existe uma delicia toda especial na mudança consciente. Não deixar passar despercebido a beleza do giro do mundo é um dom. Isso é para poucos e esses poucos muitas vezes só conseguem exercer esse tal dom em raros momentos.
O dom da novidade… Existe????
Se não existia acabei de criar. Dá licença.
Olhar em volta e ver que tudo pode ir se tornando diferente, basta só perceber….
O dia nublado de hoje, pode deixar a sala cheia de cor com a música que vem do quarto e os desenhos espalhados pelo chão…
Consequência da ensolarada tarde cinza de ontem que trouxe pra fora a criação…
O estonteante verde do lençol hoje, amanhã pode ser só a lembrança azeda do limão…
Enquanto o beijo macio pode vir de uma boca áspera ou ter gosto de fruta cítrica quando se acabou de comer sushi…
O vermelho quente do esmalte pode ser só a lembrança de que alguém segurou em minha mão…
E o apartamento vazio seria só uma necessária solidão.
Tudo pode ser uma novidade quando sabemos nos relacionar, com os outros e com nós mesmos.
As pessoas se cruzam por acaso, mas se envolvem porque se escolhem… Os prédios não estão lá por falta de onde ir, e o elevador nos fará subir pra algum lugar, é só apertar o botão.
O rumo certo???? Sabe-se lá qual será.
Só sei que é novo…
P.S.: Reflexões de um 15 de maio às 04:03h de 17/05/2010